"o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído"

(Epitáfio, Titãs, Compositor: Sérgio Britto)
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Há alguns anos li o livro "O Andar do Bêbado" (2008, Editora Jorge Zahar), e reproduzo, aqui, a resenha de uma livraria online que diz o seguinte: "O que determina o sucesso ou o fracasso de uma empreitada? Em O Andar do Bêbado, o físico Leonard Mlodinow combina os mais diferentes exemplos para mostrar que notas escolares, diagnósticos médicos, sucessos de bilheteria e resultados eleitorais são, como muitas outras coisas, determinados em larga escala por eventos imprevisíveis. Num tom irreverente, o autor costura casos emblemáticos a teorias matemáticas, citando pesquisas e exemplos presentes em todos os âmbitos da vida, do mercado financeiro aos esportes, de Hollywood à medicina. Segundo Mlodinow, os processos aleatórios são fundamentais na natureza e onipresentes em nossa vida cotidiana. Ainda assim, a maioria das pessoas não os compreende nem pensa muito a seu respeito. Como não estamos preparados para lidar com o acaso, muitas vezes tomamos decisões erradas por ignorá-lo, apoiados na ilusão de controle". Reproduzi a resenha por que estou com preguiça... E cito novamente este livro por que me é oportuno..., mas que serve, definitivamente, para um preâmbulo que instiga novos leitores para este incrível físico. Ao ler seu livro joguei por terra minha tendência de acreditar nas coincidências e nas teorias da causalidade e da casualidade. Neste ponto, tornei-me um adepto da 'Teoria do Acaso', como defende Mlodinow, e um apaixonado pela música do Titãs...

Há algum tempo li o livro do saudoso jurista, advogado e ex-ministro da justiça, Saulo Ramos, "Código da Vida" (2008, Editora Planeta do Brasil), uma autobiografia - se bem que seu livro de memórias poderia ser apontado como um livro de memórias, de história, poesias, repentes, romance e... jurisprudências... Nele, o autor, quando quer discorrer sobre conspirações e estranhas coincidências reporta a um de seus personagens prediletos. Trata-se de um velho amigo, muito íntimo, que Saulo julga como detentor de poderes mediúnicos - tipo vidência mesmo. Até o sequestro e o assassinato, com características de execução, do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, e a morte misteriosa de nove pessoas próximas ao episódio em momentos distintos é colocado ao final de seu livro - num depoimento absolutamente instigante realizado por este curioso personagem, como suspeitas no estranho código das coincidências da vida... Como a justiça, em 2010, reabriu o caso e apontou crime de responsabilidade na morte do prefeito petista, as coincidências e suspeitas deixaram de existir...

Estava no Guarujá e visitava um amigo quando a televisão noticiou a queda do avião do candidato a presidente, Eduardo Campos. Ao ver a reportagem disse-me esse amigo: "isso é conspiração!". Isso nunca foi provado. Naquela manhã o clima era o mesmo que o do episódio recente em Paraty. Chuva, tempo nublado e cinzento. Pois é, quem se atreveu, assim como eu, a percorrer o noticiário pelos sites de jornais do país, o que mais se verificou é que Teori Zavascki, relator da Lava-Jato, que na véspera de entregar seu relatório final, morre num acidente de avião, nos deixa no ar essa dúvida: coincidência, suspeita ou mero acaso?!?

Há alguns meses li o último livro de Umberto Eco, "Número Zero" (2016, Editora Record), cuja resenha em um site diz o seguinte: "Convivendo com os colegas de trabalho, Colonna conhece Braggadocio, um jornalista paranoico que diz investigar verdades ocultas, segundo ele relacionadas à história da Itália desde a Segunda Guerra. As teorias da conspiração de Braggadocio envolveriam a maçonaria, os assassinatos de Mussolini, do papa João Paulo I, a CIA, terroristas e atentados manipulados pelos serviços secretos". Um livro escrito sobre jornalismo e sobre jornalistas. A coincidência é que Eco morreu após a edição desse livro e Braggadocio, um de seus personagens, no final do ultimo capítulo, que diz que o verdadeiro Mussolini morreu em 1968 e que Hitler se refugiou na Argentina, é encontrado morto pela polícia. Isso faz com que Colonna, que se apaixona por uma colega de trabalho - também jornalista, resolva fugir para América do Sul e diz para a amada que era bom viajarem para a Bolívia ou Colômbia - não me lembro bem da ironia, mas refere-se precisamente a um desses países onde ficaria Copacabana...

No Brasil ou em qualquer país do planeta as teorias da conspiração envolvem a mente de muita gente. Seja no jornalismo, na literatura ou em filmes, as teses conspiratórias se expandem. Em nosso país até hoje se debate sobre as mortes de Getúlio Vargas, João Goulart (cujo nome pertencia a lista da chamada "Operação Condor"), Juscelino Kubitschek, Rubens Paiva, Vladimir Herzog, Davi Capistrano, Gonzaguinha, Chico Science, além de tantos outros — como PC Farias. Da doença e passagem de Tancredo Neves e as pichações em muros do país de que a General Eletric esteve envolvida, já ouvi ou li dezenas de histórias e teses enigmáticas de mortes de notáveis…

Quando garoto me perguntaram se eu conhecia o "Cúmulo da Coincidência". Ao responder que não, me disseram: "Você vai até o cinema, senta na poltrona e delicadamente enfia o dedo no nariz e retira aquela meleca e a põe embaixo do assento e espanta-se ao levantar o dedo com outra remela, pois tinha outra ali"...

Mas o pior 'cúmulo' é o "Cúmulo dos Cúmulos": ser atropelado por uma ambulância em frente a um hospital e morrer por falta de atendimento médico.

Meu amigo Sergio Ribeiro, o Seri, cartunista do Jornal Diário do Grande ABC , foi quem me disse uma vez: "tenho um amigo vidente que é homossexual e tem hemorroidas na terceira visão... " . Sei lá se isso é verdade...

Não li "Uma Confraria dos Tolos" (John Kennedy Toole, 1980, pela Editora Record, e 1986, editado pelo Círculo do Livro - fora de circulação), citado duas vezes por Leonard Mlodinow em seu livro, mas se por acaso você, um dos meus poucos leitores, tiver um exemplar, coincidência ou não, me empresta que eu gostaria de ler...

São Paulo, 18 de janeiro de 2017

Ator e Jornalista (bit.ly/32zd4SV)

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